Uma paixão de ônibus

Desde que roubaram meu carro, há uns 30 dias, tenho feito algo que eu não fazia há muito tempo: andar de ônibus. Numa cidade como São Paulo, no verão, isso significa tomar muito sol, tomar chuva e, frequentemente, perder tempo demais no ponto de ônibus. Mas a experiência não se resume aos aspectos ruins. No lado bom, eu redescobri o ônibus, e também o metrô, como um lugar de contatos humanos. É possível conversar, rir e até se apaixonar na condução. O transporte público não é só mais ecológico, ele pode ser mais romântico também.

De zero a dez, qual a chance de conhecer uma pessoa legal indo de carro para o trabalho? Nenhuma. Ou melhor, você pode atropelar o amor da sua vida, como aconteceu na novela Dancing Days, de Gilberto Braga. Os mais velhos se lembram. Quem gosta de amor bandido tem a chance de conhecer um assaltante ou um sequestrador. Basta ele aparecer com um revólver na janela do seu carro. Há também os acidentes. Conheço uma moça cujo carro foi abalroado (alguém ainda usa esse verbo?) pelo Raí, o ex-jogador de futebol e sonho de consumo de boa parte da mulherada. Enquanto o carro estava na oficina, ela falou com o bonitão ao telefone meia dúzia de vezes. Teve a chance dela.

Compare essas migalhas estatísticas com as possibilidades quase infinitas do ônibus ou do metrô. Todos os dias, a qualquer hora, há dezenas ou centenas de caras novas no transporte público. Ok, nem todas são agradáveis. Muitas estão de péssimo humor, algumas estarão com péssimo odor, e com várias delas você, definitivamente, não quer travar contato. Mas, feita essa seleção superficial, ainda restam muitos.
Eu, mesmo sendo tímido, já conversei com muita gente desde que voltei ao transporte público. É natural. A pessoa está ao seu lado, basta fazer um comentário ou pedir uma informação. Não soa inteiramente invasivo. Na verdade, é um gesto saudável de sair de si mesmo e esticar a mão. Nós, como espécie, não fomos geneticamente projetados para andar isolados dentro de uma SUV, berrando ao celular. Somos criaturas sociais, que nos alimentamos do riso, da conversa e do convívio.

Como em toda parte, na condução há códigos de contato que têm de ser respeitados. Gente com iPod tocando tão alto que você pode escutar do outro banco não está interessada em conversar – ou é tão surda que você vai ter de usar linguagem de sinais para se fazer entender. Melhor evitar. Pessoas mergulhadas muito profundamente na leitura em geral não querem ser interrompidas. Deixe-as em paz. É aconselhável, também, respeitar o sono dos justos. Não vá você, garanhão, sacudir a gatinha que dorme ao seu lado no banco para perguntar o que ela achou da cerimônia do Oscar. Ela terá toda razão de mandá-lo para o inferno.

Para mim, que não ando de iPod e tenho náusea se insistir em ler no ônibus, a grande distração é olhar. Há gente de todas as cores, idades e aspectos no ônibus. Muita gente bonita, inclusive. A diversidade racial brasileira, que surpreende e encanta os estrangeiros, está mais presente na condução do que nos locais de classe média de São Paulo, sempre tão bregas e caipiras na sua uniformidade. Lembro de um amigo americano que dizia assim: “Vocês acham bonitas as mulheres do shopping. Eu acho bonitas as mulheres do ponto de ônibus”. Hoje eu entendo melhor o que ele queria dizer. E não é apenas uma questão de aparência. É atitude também.

Outro dia, eu estava de pé, me preparando para descer do ônibus, quando reparei, sentada num banco à minha esquerda, numa mulher linda, de traços escuros, olhos imensos, uma cabocla brasileira que poderia enfeitar qualquer tela do Paul Gauguin. Eu me distraí olhando para ela e a moça percebeu. Mas, em vez de baixar os olhos, como eu inconscientemente supus que ela faria, sustentou o meu olhar com tranquila insolência, como quem perguntasse: e agora, cavalheiro, vai fazer o quê? Diante desse gesto altivo, claro, quem ficou tímido fui eu. Baixei a cabeça e desci do ônibus com o rabo entre as pernas. Quem não quer se molhar entra na chuva para quê? Bobão.

Confesso que eu adoro isso. A falta de hierarquia no transporte público me encanta. Numa sociedade tão desigual, tão cheia de superioridades fajutas, o metrô e o ônibus igualam as pessoas. Ali são todos cidadãos, cada um com sua carinha, sua roupinha e suas angústias, que atravessam o rosto à medida que os pensamentos se processam. Basta reparar. Dentro do carro, protegidos pelo ar condicionado e pela música, podemos cultivar a ilusão de que somos diferentes de todo mundo, pessoas especiais. O ônibus desfaz esse engano. O metrô repara esse equívoco. Eles nos põem na multidão cobertos apenas pelo nosso caráter. Nos inserem quase nus na vida da cidade – com toda a complicação, todo desconforto e todas as possibilidades que isso acarreta.

Achei esse texto nos arquivos da Época e foi escrito pelo editor Ivan Martins! Achei senscacional.

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